Sítio arqueológico reconhecido pela Unesco integra circuito histórico na região portuária, impulsiona projetos urbanos e reúne acervo de 1,5 milhão de peças sob guarda municipal.
A cidade do Rio de Janeiro completa 15 anos da redescoberta do Cais do Valongo, sítio arqueológico identificado em 2011 durante as obras do Porto Maravilha e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017. Localizado na região portuária, o espaço é considerado um dos principais marcos da Diáspora Africana nas Américas e consolidou-se como centro de memória, pesquisa e educação.
O Rio de Janeiro assinala nesta quinta-feira (26) os 15 anos da redescoberta do Cais do Valongo, identificado em 2011 durante as escavações do projeto Porto Maravilha. Em 2017, o sítio arqueológico recebeu o título de Patrimônio Mundial pela UNESCO, consolidando seu reconhecimento internacional.
Estudos históricos apontam que o local foi ponto de chegada de mais de 1 milhão de africanos trazidos ao Brasil para serem escravizados, configurando-se como um dos principais vestígios materiais da Diáspora Africana nas Américas. A redescoberta ampliou a visibilidade da contribuição da população africana e de seus descendentes na formação cultural da cidade.
O sítio integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que reúne marcos da chamada Pequena África, como o Cemitério dos Pretos Novos, a Pedra do Sal, o Jardim Suspenso do Valongo e o Centro Cultural José Bonifácio. O circuito é utilizado como ferramenta pedagógica por escolas públicas e privadas, em parceria com o Instituto Pretos Novos.
Integração com novos projetos urbanos
A área onde está localizado o Cais do Valongo também integra o projeto Praça Onze Maravilha, encaminhado pela Prefeitura à Câmara Municipal. Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, a proposta prevê investimento estimado em R$ 1,75 bilhão, construção de 38 mil unidades residenciais e potencial atração de mais de 100 mil moradores ao longo de 25 anos.
O plano inclui a demolição do Viaduto 31 de Março e a construção da Biblioteca dos Saberes, com projeto assinado por Diébédo Francis Kéré, vencedor do Prêmio Pritzker.
Transformações históricas
Construído em 1811, o cais foi implantado na então Freguesia de Santa Rita, afastado do núcleo urbano central. Operou legalmente até 1831, quando o tráfico transatlântico foi oficialmente proibido, embora a prática tenha continuado de forma clandestina por anos.
Em 1843, o local passou por reformas para receber Teresa Cristina, que chegava ao Brasil para se casar com Dom Pedro II, sendo rebatizado como Cais da Imperatriz. Posteriormente, em 1911, foi novamente soterrado durante as reformas urbanas conduzidas pelo prefeito Pereira Passos.
A redescoberta em 2011 levou à revisão do projeto viário da Rua Barão de Tefé, que passou de mão dupla para mão única, preservando o sítio como memorial a céu aberto para visitação pública, em acordo com lideranças do movimento negro.
Laboratório aberto e acervo arqueológico
Em frente ao cais, o galpão histórico Docas André Rebouças abriga o acervo coletado durante as escavações. O material está sob responsabilidade do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (Laau), vinculado ao Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.
Desde 2014, a Prefeitura informa ter investido mais de R$ 20 milhões na conservação e pesquisa do acervo, que reúne cerca de 1,5 milhão de peças arqueológicas. O espaço pode ser visitado gratuitamente mediante agendamento, e o público pode acompanhar parte do trabalho técnico por meio de áreas envidraçadas que permitem observar as atividades laboratoriais.
O Instituto integra o Comitê Gestor do Sítio Arqueológico Cais do Valongo, instituído por portaria do IPHAN em 2023.
Quinze anos após a redescoberta, o Cais do Valongo permanece como referência internacional em preservação arqueológica e como eixo central das políticas de memória na região portuária do Rio.

