
A trajetória de uma mulher que enfrentou a Inquisição Portuguesa por amar outras mulheres ganha nova vida nos palcos cariocas com o espetáculo “Filipa”, em cartaz de 5 a 28 de junho, no Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF), no Centro do Rio. Com dramaturgia de Gabriela Amaral, direção de Maria Clara Guim e atuação de Waleska Arêas, a montagem revisita a história real de Filipa de Sousa (1556-1600), considerada uma das primeiras vítimas de perseguição por orientação sexual em território brasileiro.
Baseada em documentos históricos, a peça mergulha no julgamento de Filipa, portuguesa radicada na Bahia colonial que, em 1592, foi condenada pelo Tribunal do Santo Ofício sob a acusação de praticar o chamado “pecado nefando”, termo utilizado pela Inquisição para se referir ao lesbianismo. Sua condenação incluiu prisão, açoites públicos e degredo perpétuo.
Mais de quatro séculos depois, sua história segue atual ao levantar reflexões sobre liberdade, identidade, intolerância e os direitos da população LGBTQIAPN+. A montagem busca ir além do registro histórico e apresenta a dimensão humana de uma mulher que ousou viver seus afetos em uma época marcada pela repressão religiosa e social.
Em cena, Waleska Arêas interpreta Filipa, seu inquisidor e uma narradora que conduz o público pelos acontecimentos que marcaram a vida da personagem. A encenação utiliza fios coloridos espalhados pelo palco como elemento simbólico, representando memórias, conexões afetivas e fragmentos de uma história que atravessa séculos.
Segundo a autora Gabriela Amaral, o interesse pela personagem surgiu há mais de duas décadas, a partir de uma breve referência encontrada em uma publicação sobre mulheres na história do Brasil. Desde então, a dramaturga reuniu pesquisas que deram origem ao texto, transformando a vida de Filipa em um espetáculo que dialoga diretamente com questões contemporâneas.
A diretora Maria Clara Guim destaca que a montagem propõe uma reflexão sobre os mecanismos históricos de exclusão e violência, ao mesmo tempo em que celebra trajetórias de resistência. Com equipe majoritariamente formada por mulheres, o espetáculo também reforça o debate sobre representatividade e memória.
Sinopse
Durante seu julgamento pela Inquisição Portuguesa, Filipa de Sousa revisita sua trajetória, seus relacionamentos e as circunstâncias que a levaram à condenação. Em um jogo cênico que alterna diferentes pontos de vista, a peça apresenta a história de uma mulher que enfrentou as estruturas de poder de seu tempo para viver seus afetos de forma livre.
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